20 de agosto de 2009

É rir pra não espirrar

Agora todo espirro é letal. Por mais discreto que seja, qualquer “atchim” no ônibus é motivo para abrir a janela emperrada a qualquer custo. É uma cena tão tragicômica quanto a própria gripe suína. Antes que o negócio ficasse sério, como se vê hoje, a gripe só serviu como tema de piadas contemporâneas. A progressão da piada e da gripe A, que hoje já fazem parte do dia-a-dia do brasileiro, é evidente. Só os mais ousados fazem brincadeiras atualmente, e a imprensa não é mais a culpada pelo alarde que hoje se encaixa direitinho à dimensão do problema.

Além de misturar o vírus do homem com o vírus do porco, a gripe fez uma miscelânea de humor e pânico no mundo todo. As piadas com o porco e com os mexicanos, argentinos, etc, se multiplicaram em velocidade superior ao do número de infectados.

Começando pelos humoristas mais fracos, ou que pensam menos, veio a óbvia identificação com o mascote de um time do Palestra Itália. Por não ter nenhum caso da gripe na época, o brasileiro quis entrar na dança na base da zoação. Eu mesma, muito inocente, achei que tinha uma super matéria. Só depois fui descobrir que o que tinham visto era um “palmeirense espirrando”. Super elaborado!

Mais tarde, mudando de foco, o povo passa à pressuposta pandemia mundial e solta trocadilhos como. “É um aporcalipse”. O número de casos vai aumentando e escolhe-se o culpado. O México ficou na mira das piadinhas que começaram a se materializar. A moda foram as camisetas com os dizeres: “Quer viver perigosamente? Beije um mexicano”.

Aí pensou-se: Ok. Vamos levar a sério, vai. Vamos colocar as máscaras, tomar cuidado. Quem sabe desenhar uns sorrisinhos assim, pra ficar mais divertido. Não adiantou.

Segundo uma matéria publicada na Uol no começo do mês, uma empresa dos Estados Unidos já está confeccionando bichinhos de pelúcia do vírus Influenza H1N1. Que graça, não? O diretor de operações da Giantmicrobes (medo!!) declara na matéria que a empresa não quer que o produto seja algo de mau gosto ou inapropriado. Nice try!

Mas fazer piada com uma doença letal foi politicamente incorreto? Bom, por falar em político, se até o endeusado Obama fez piadinhas com o problema, quem sou eu pra dizer que não pode? Ele comentou em um discurso em um jantar da Associação de Correspondentes no começo do mês que sua rival Hyllary Clinton, depois de visitar o México, o abraçou e beijou, sugerindo que visitasse o país infectado.

Aliás, o novo amigo do presidente americano, Lula também nem deu moral. Há alguns meses a trás, ele afirmou no seu programa de rádio Café com o Presidente que “a gripe não é do tamanho que parecia que ia ser”. Parece que ‘O cara’ acha que é melhor não fazer escândalo.

Para não escandalizar as mães, os jovens agora inventaram uma desculpa para o álcool dentro da mochila. Nem os cuidados para prevenir ficaram de fora da zoação. Tutty Vasques, um jornalista metido à humorista e vice-versa, conforme ele mesmo define, postou no seu blog que a moda agora nas escolas é o “caipiralcool em gel”.

Segundo o jornalista Ricardo Kauffman em um artigo no Terra, “o humor tem a capacidade histórica de convidar à reflexão e a ele não escapa o desconcerto das atitudes”. Moral da história. A influência do humor,(sem querer fazer trocadilho com o nome do vírus) foi tão sutil no início, que a culpa do alarde cai nas costas da imprensa.

Embora a doença tenha sido manchete durante vários dias, acompanhou-se a preocupação de autoridades como a OMS e a disseminação do vírus pelo mundo, que hoje se comprovou ter sido coerente.

Não foram poucos os críticos que ressaltaram que a crise não era tão grande assim. Mas não é possível ignorar a existência do problema só para não assustar o já neurótico povão. No final das contas o brasileiro ficou com o parafraseado bordão: Perde-se o controle, mas não se perde a piada.

Enfim. Entupam-se todos os neuróticos, de remédios contra gripe e de piadinhas sem graça. Drogas por drogas, o importante é não estar sóbrio.

Texto por: @Carollnogueira siga!!

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